Seguindo para a esquerda da praia do Félix, até o fim, atravessando a costeira por uma trilha na mata, chega-se à praia das Conchas. A foto, aí em cima, foi tirada num trecho desta trilha. Dá pra perceber a mata que envolve a praia, do começo até o fim do Félix. E algumas casas no morro, no canto direito da praia. A palmeira que aparece no primeiro plano é um patieiro. Nativa do litoral da mata atlântica, sua copa atravessa as copas das árvores. É magrela e comprida.
Recebemos a visita surpresa, sem reserva, de dois saguis. Anunciaram a chegada com gritos estridentes, que mais pareciam assobios muito fortes. Um deles passeou pelos telhados da pousada, calhas, cercas, enquanto o outro ficava gritando da mata. Comeu umas bananas, uma cigarra e outros coisinhas que não conseguimos identificar. Teve um encontro inusitado com um esquilo, que frequenta uma das árvores do jardim. O esquilo ficou tão surpreso quanto nós, não tínhamos notícia de saguis nessa faixa do litoral. Nem os caiçaras mais velhos tinham visto algum por aqui. Alguns dias depois se hospedou na pousada um simpático biólogo músico (?!) que trabalha no Museu de Zoologia de São Paulo. Coincidentemente, especialista em sagui. Fiquei de mandar as fotos do bichinho, acabei esquecendo (sorry), mas vou pedir pra ele dar uma olhada aqui. Ele acreditava ser um tipo de híbrido, cruzamento de duas espécies comuns no Brasil. Confirmando o relato local, disse que não eram muito comuns na região.
Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passaram, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse - de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta - tudo isso, no meu passeio à beira mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amamos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso noturno do meu passeio à beira mar…
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno à beira mar!
Fernando Pessoa (Bernardo Soares), em seu ‘Livro do Desassossego’
O que faz uma pousada atingir a sustentabilidade e dar lucro é um conjunto de características que satisfazem o hóspede. Muitas dessas características não fazem parte da pousada, mas de seu entorno. Isto fica muito evidente nas pousadas de beira de praia, onde a praia é o primeiro imã de gente. A localização da pousada é essencial, mas não é tudo. Os equipamentos da pousada tem de satisfazer o seu cliente. Vou tentar evitar os adjetivos como conforto, beleza…e acessórios, como ar condicionado, televisão, etc. A pousada tem de ser legal para o público que ela escolheu ter como hóspede, o que não a faz boa pra todo tipo de gente. É isso mesmo: o dono da pousada é quem escolhe o tipo de pessoa que frequenta o estabelecimento e, quando o dono da pousada sabe disso, encontrar esse perfil de público e atraí-lo vira uma tarefa mais fácil (e com mais resultados). Parte das características para se escolher o público já vem pronta com o lugar, ou seja, determinados lugares já atraem pessoas com perfil conhecido, mas grande parte é definida pela arquitetura, pelos equipamentos e serviços e pela ‘filosofia’ do lugar (filosofia está entre aspas, pois quero chamar a atenção para o sentido subjetivo da palavra que, neste caso, mistura o ambiente comercial com a visão de mundo de quem está planejando o lugar).
O que as fotos tem a ver com tudo isso? A fotografia tem uma linguagem complexa, dirigida. Ao se escolher as fotos que falarão sobre a pousada precisamos ter em mente o público que queremos que frequente o lugar e o que é que esse público espera. A Pousada da Praia escolheu um público tranquilo, silencioso e que quer um contato mais estreito com a natureza preservada do local e isso está subliminar na escolha das fotos. Logicamente que as características do público são mais complexas e também não quer dizer que esse tipo de público é legal para qualquer tipo de pousada. Independentemente destas questões, a dica é ser honesto, não mostrar o que não tem e nem fantasiar (produzir é o termo técnico) demais os ambientes. Atrair público para uma pousada não é uma tarefa impossível, mas ela sobreviverá se o pessoal indicar mais gente, falar bem do lugar.
As fotos da Pousada da Praia, na internet, além de ilustrarem as páginas principais, ficam em um albúm, numa página separada e o link está na foto a seguir.
Jardim da Pousada da Praia
O ideal é ter um espaço, na página de internet da pousada, para colocar fotos de hóspedes, sempre devidamente autorizadas. Além de trazer o hóspede pra mais perto, essas fotos geralmente já carregam a linguagem de público que tanto falamos. A foto abaixo é de um hóspede inglês, o Eddie Keogh, fotógrafo de esportes da Reuters e que deixou umas fotos para a Pousada. O cara é bom e nem preciso dizer que foi uma honra receber tão valioso presente. Na imagem tem um link que leva para as fotos que ele deixou. Mas se você quiser ver outras fotos do cara entre no www.eddiekeogh.com e bom proveito.
Passeando pelo Youtube descobri este pequeno vídeo do café da manhã na Pousada da Praia. Algumas coisas estão diferentes, as mesas são de outro modelo, as cadeiras estão de outra cor, mas o essencial está aí. O vídeo foi feito por algum hóspede e é bem curtinho.
Esse parece ser o sonho de muita gente. Para realizar um sonho primeiro precisamos acordar. Ter uma pousada, na maioria das vezes, é saber como se lava roupa, como se prepara um café da manhã e como trocar chuveiro. A pousada, quando bem localizada, realiza um sonho cenográfico, arquitetônico, mas você tem de compartilhar isso com pessoas desconhecidas. Em princípio arrisco dizer que pousada nem é um bom negócio, no sentido comercial mesmo. Os custos de manutenção, o gasto com pessoal, com divulgação e atualização são muito altos, considerando que o faturamento, geralmente, é proporcional ao tamanho. E pousada não é hotel.
Pousada é estilo de vida.
Talvez isso defina um pouco melhor esse sonho e se revele quando percebemos o quanto as pousadas parecem com seus donos. É um trabalho onde se misturam questões práticas muito fundamentais (lavar a roupa…) com questões subjetivas delirantes, de como encantar pessoas.
Acredito que a melhor relação que se pode ter com uma pousada é a de ser hóspede. Ficar imaginando o que acontece nos bastidores, atrás daquela porta. Como se prepara o iogurte e o que significam aquelas cores no mapa de reserva. E realmente aproveitar o entorno, a experiência de estar naquele lugar. Com o nível de conforto contratado e sem muito trabalho.
Bueno, seja bem-vindo à Pousada da Praia. Isto é um pouco do que acontece por aqui. Como funciona uma pousada, como se conserta, planeja, pinta, recebe, limpa, hospeda e etcs. Como é a vida de uma pousada na beira mar? Tudo fica cheio de areia? Existe filosofia em pousadas? Calma, calma. Deixe seus chinelos no portão, entre e relaxe.